Capítulo 01 – O retorno. O pressentimento e a tranquilidade aparente.
Fevereiro de 2024. Aos 47 anos, casado há 14, com uma filha de 11, Juarez acreditava estar vivendo uma fase tranquila — talvez a mais estável dos últimos tempos. Entre o trabalho como jornalista e as consultorias empresariais, havia planos, metas e aquela sensação rara de que as coisas, enfim, estavam em seu devido lugar. Ele se sentia bem. Ou, pelo menos, achava que sim. A saúde parecia dentro da normalidade. Um cansaço aqui, uma dor nas costas ali — nada fora do comum. Afinal, quem nunca culpou o colchão, a postura ou as horas diante do computador? Mas havia algo diferente naquele início de ano. Uma leve pressão nas costas, um incômodo quase tímido, vindo e indo como um sussurro de aviso. Coisas pequenas, fáceis de ignorar... até que deixaram de ser. Foi o início de uma sequência de acontecimentos que mudariam a forma como Juarez enxergava o próprio corpo — e, de certa forma, a própria vida. Calx estava de volta. Impaciente, debochada e decidida a lembrá-lo de que o corpo fala, mesmo quando a mente insiste em silenciar. Juarez pressentia que aquele seria o começo de um reencontro. Entre ele e suas dores. Entre ele e o tempo. Entre ele e tudo aquilo que o corpo, silenciosamente, vinha tentando dizer há anos. Tudo começou de novo. Do nada, uma fisgada rápida nas costas — o tipo de dor que faz o corpo travar no meio do movimento e escapar um “aiii” involuntário. Passou em segundos. E, como sempre, ele fingiu que não era nada. Talvez um músculo, um peso mal levantado, uma noite mal dormida. Mas no fundo, ele sabia. Aquela pontada tinha um nome, um rosto invisível e uma história antiga: Calx. As velhas pedras conhecidas que o acompanhavam havia quase trinta anos, desde o tempo do Exército, quando tudo começou. “A primeira vez foi em 1996, no alojamento do exército. A dor o pegou de surpresa — e desde então, ela nunca mais esqueceu o caminho.” Durante todos esses anos, elas vinham e iam como visitas indesejadas que nunca perdiam o endereço. O corpo avisava, a dor crescia, e logo vinha o soro, o analgésico, o olhar compassivo de um enfermeiro que parecia já conhecê-lo de outras crises. E assim, Juarez seguia em frente. Trabalhava, estudava, fazia planos. Mas em algum canto — talvez nos rins, talvez na alma — havia sempre a possibilidade silenciosa de uma nova guerra. Era como viver com uma sombra discreta, uma lembrança constante de que, a qualquer momento, o corpo poderia colocá-lo de joelhos. Naquele início de 2024, essa sombra voltou a se mexer. E Juarez, ainda acreditando que o corpo era uma máquina sob controle, seguiu o dia como se nada estivesse acontecendo — sem imaginar que os pequenos avisos eram apenas o prelúdio de um reencontro intenso com a dor, as lembranças e as próprias escolhas. Elas estavam de volta, Calx.
Continua... Capitulo 2.
Conheça “As Pedras Que Dei à Luz” e descubra a leveza escondida nas cicatrizes.
Cada dor conta uma história — e talvez a sua também mereça ser ouvida.


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