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Revista de Estratégia & Comportamento

As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 02

Uma história sobre dor, humor e o poder de ouvir o próprio corpo. Capítulo 2

Autor: Juarez CamargoPublicado: 06/10/20258 min min de leitura
As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 02

Capítulo 2 – O Chamado. O despertar da dor e o diálogo com as pedras.

Durante anos, Juarez viveu com um inimigo silencioso — uma entidade que nascia dentro dele, crescia às escondidas e, quando queria, o fazia se contorcer de dor. O inimigo tinha nome, forma e até personalidade. Era feito de oxalato de cálcio, mas se achava feito de ferro. As pedras. Os cálculos renais. Elas surgiam com uma fisgada, um “Aiii” quase inocente. Um aviso. Um sussurro nas costas: “Tô aqui, Juarez. De novo.” Ele já conhecia o script — as fisgadas, o suor frio, o remédio que não pegava mais, a ambulância. Mas nada se comparava à sensação de expulsar uma. Era quase um parto mineral. Juarez ria sozinho, olhando para o vaso limpo, pescando com papel higiênico sua mais nova “cria”. Colecionava cada uma. Catalogava com data e hora. Um ritual meio científico, meio macabro. “Essas são as pedras que dei à luz”, dizia, meio brincando, meio acreditando. Mas as pedras também tinham sua versão da história. Lá dentro, no escuro do rim, elas se formavam com um certo orgulho. “Olha ele aí, bebendo pouca água de novo... Ah, e se alimentando mal? Refrigerante? Maravilha, mais sais pra gente crescer!” Elas riam, cúmplices. “Nascer em Juarez é garantia de aventura!” Uma, mais ousada que as outras, chamava-se Calx. Tinha pontas afiadas e um senso de humor cruel. “Vamos dar um alô nele hoje?”, dizia — e Juarez sentia a fisgada. “Aiii!” O ciclo se repetia. O pronto-socorro. O Tramadol. A Morfina — o inferno em ampola. A cada visita, Juarez era recebido como cliente fiel: “Ah, o das pedras voltou.” Nos exames de imagem, lá estavam elas, alinhadas como um exército: quatro, cinco, seis soldados do caos. Depois, vinha o ritual da litotripsia — as máquinas, os choques, o barulho de tic-tic-tic — as seis mil batidas que ecoavam dentro do corpo. “Parece tortura”, pensava. Mas Calx, lá dentro, vibrava: “Ele acha que vai me quebrar? Coitado. Sou teimosa. Sou filha da negligência e do metabolismo rebelde.” Uma vez, em 2019, numa clínica diferente, Juarez conheceu a dor em outro nível. A máquina era menor, mas parecia mais forte. A enfermeira, como uma gamer experiente, pilotava o aparelho com precisão. “Muitos tiros certeiros na Calx!” E dessa vez, a pedra se desfez. Juarez urinou fragmentos, sangue e alívio. Do outro lado, Calx sussurrou: “Até breve.” Quatro anos de paz. Alimentação regrada, treinos, hidratação exemplar. Parecia que o corpo tinha feito as pazes consigo mesmo. Mas a idade trouxe de volta o eco de uma velha conhecida. Desta vez, não começou nas costas — foi na virilha do lado direito. Um estalo. Uma fisgada que subiu queimando. “Aí vem ela…” E veio. Em 2023. A cólica. O desespero. A ambulância. O diagnóstico: uma pedra de 7 milímetros no ureter. Calx estava de volta — reencarnada e vingativa. O ciclo recomeçou, mas agora o cenário era diferente. O convênio tinha acabado, os recursos eram outros, e Juarez precisava enfrentar o monstro quase sozinho. Fez mais um procedimento, aguentou seis mil batidas, o sangue jorrou — e mais uma vez, Juarez venceu Calx, como num batismo de sofrimento. Mas a verdadeira dor ainda estava por vir.

Fevereiro de 2024. Uma nova pedra. 8,5 milímetros. Lado esquerdo agora, alojada no ureter, e com uma sede por destruição.

Cinco litotripsias falharam. As clínicas divergiam. Uma delas, mal equipada, aplicou o procedimento errado — sem imagem nítida, sem resultado. Até que um médico frio o olhou nos olhos e decretou: “Você já expeliu a pedra. Está de alta.” Meses de dor. Noites sem dormir. Remédios que pareciam placebo. O psicológico começou a desabar. Juarez orava, gritava, questionava: “Por quê, meu Deus?” Duvidava de si mesmo. E a pedra apenas ria. “Aqui quem manda sou eu.” Mas Juarez sabia. Lá dentro, ela ainda estava. A bandida. No dia 5 de fevereiro de 2025, após um ano de batalha, trabalho psicológico e muita fé, o desfecho chegou. Ele sentiu a pressão, o bloqueio, a uretra travada — o limiar entre o inferno e o alívio. Uma noite inteira esperando a bexiga se encher, como quem prepara munição. “Ou sai, ou me leva junto.” E, às 7h23 da manhã, o corpo se rendeu. Com uma força absurda, a pedra foi expulsa — inteira, de 8,5 milímetros — ricocheteando na tampa do vaso como um tiro de libertação. Calx caiu no silêncio. Juarez chorou. E, em algum lugar invisível, o rim exalou um suspiro de paz. Ele a catalogou, como sempre. Mais uma lembrança. Mais uma vitória. Cada pedra guardava uma parte dele. Cada dor, uma lembrança do que o corpo tentava dizer quando a alma esquecia de ouvir. Mas Juarez sabia — no fundo, outras poderiam vir. E se vierem, que venham falando. Porque agora, Juarez prometeu, vai contar sua história antes que elas contem por ele.

Continua... Capitulo 3.

Conheça “As Pedras Que Dei à Luz” e descubra a leveza escondida nas cicatrizes.

Cada dor conta uma história — e talvez a sua também mereça ser ouvida.

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