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Revista de Estratégia & Comportamento

As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 03

Uma história sobre dor, humor e o poder de ouvir o próprio corpo. Capítulo 3 – O Silêncio Depois do Tiro

Autor: Juarez CamargoPublicado: 06/10/20255 min min de leitura
As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 03

Capítulo 3 – O Silêncio Depois do Tiro. O momento da crise e a catalogação simbólica.

O som ainda ecoava — ploc! — quando a pedra bateu na tampa do vaso. Pequena, inofensiva, mas com o peso de um ano inteiro de dor. Juarez ficou parado, respirando fundo. O corpo ainda tremia, como quem sobreviveu a um terremoto. Naquele instante, percebeu: não era mais apenas um corpo expelindo um corpo estranho. Era um renascimento. A casa estava em silêncio. O relógio marcava 7h23. No espelho, o reflexo mostrava um homem suado, exausto — mas com os olhos vivos. Havia algo de triunfo ali. — Você quase me venceu, Calx — murmurou, olhando para o fundo do vaso. — Mas confesso, você foi uma adversária digna. E, por um segundo, ele jurou ouvir uma resposta — fraca, quase um sussurro mineral: “Não me odeie, Juarez. Eu só existo porque você me permite nascer.” Silêncio. Um arrepio subiu-lhe a espinha. Com mãos trêmulas, ele lavou o rosto, depois pegou o potinho onde guardava suas pedras. Fez o que sempre fazia: catalogou. Data: 05/02/2025 Hora: 07h23 Peso: insignificante Significado: imenso Naquela momento, diante da coleção — cada pedra uma história, uma luta, um lembrete — Juarez começou a entender. Talvez elas não fossem inimigas. Talvez fossem mensagens. Avisos silenciosos de um corpo pedindo socorro. Talvez, de alguma forma, fossem professoras. Mas Calx, mesmo depois de morta, ainda narrava por dentro. Lá do além do cálcio, sua voz ressoava — irônica, debochada, quase carinhosa: “Você me chama de vilã, mas quem foi que me criou? Eu nasço da tua pressa, da tua rotina sem pausa, da tua mania de engolir o mundo. Eu sou a tua teimosia cristalizada. E enquanto você não aprender a me ouvir, Juarez... sempre haverá outra de nós.” Ele ficou em silêncio. Não sabia se era delírio, trauma ou iluminação. Mas aquela voz fazia sentido. Era hora de mudar — não só a dieta, não só os litros d’água, mas a forma de viver. Porque, afinal, o corpo fala. E às vezes, fala em pedregulhos. Nos dias seguintes, as dores diminuíram. Mas a memória ficou. Cada vez que sentia sede, lembrava da fisgada. Cada vez que sentava na bicicleta, lembrava das madrugadas de cólica. E cada vez que olhava o potinho, via não uma pedra — mas um espelho. Um espelho mineral, refletindo o que ele tinha ignorado por anos: a necessidade de se escutar. Juarez começou a escrever. No começo, era só um desabafo. Mas as palavras vinham com força, vivas, pulsantes — como se cada pedra ainda sussurrasse dentro dele suas próprias memórias. Era hora de transformar dor em narrativa, sofrimento em símbolo, e a Calx… em personagem.

Continua... Capitulo 4.

Conheça “As Pedras Que Dei à Luz” e descubra a leveza escondida nas cicatrizes.

Cada dor conta uma história — e talvez a sua também mereça ser ouvida.

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