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Revista de Estratégia & Comportamento

As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 04

Uma história sobre dor, humor e o poder de ouvir o próprio corpo. Capítulo 4 – O Julgamento de Calx

Autor: Juarez CamargoPublicado: 07/10/20256 min min de leitura
As Pedras Que Dei à Luz - Cap. 04

Capítulo 4 – O Julgamento de Calx. A consciência toma forma e cobra sentido.

Mesmo com o dia apenas nascendo, Juarez adormeceu exausto. Dormiu de lado, como quem ainda tem medo da dor acordar junto. Mas o que veio não foi o descanso — foi o chamado. Quando abriu os olhos, não estava mais em seu quarto. O chão era feito de cristais. As paredes pulsavam em tons azulados. E um som metálico ecoava de longe — o gotejar lento de um cano dentro de uma caverna. Diante dele, um letreiro de néon flutuava no ar: TRIBUNAL DO RIM – PROCESSO Nº 8.5/2025. Juarez piscou, confuso. No centro do salão, um trono de cálcio e urato brilhava intensamente. E lá estava ela — Calx — sentada com ar de majestade debochada, balançando as pontas afiadas do corpo como quem brinca com navalhas. — Bem-vindo, criador — disse ela, com uma voz que soava como o som de um copo riscado por uma colher. — Finalmente veio prestar contas. — Criador? — Juarez olhou ao redor. — Isso aqui é um sonho? — Sonho, delírio ou consciência... chame como quiser — respondeu Calx. — Mas sim, é real o suficiente pra doer. Atrás dela, centenas de outras pedras — pequenas, médias, gigantes — observavam em silêncio. Algumas brilhavam como estrelas. Outras, opacas e sombrias, pareciam juízas severas. Uma delas cochichou: — Esse é o cara que nos fez nascer com cerveja e abacaxi... poético. Juarez ergueu as mãos, indignado. — Ei, peraí! Vocês acham que eu quis isso? Eu bebo água, me alimento bem, faço academia... Calx sorriu — lenta, venenosa. — Ah, o discurso clássico do criador arrependido. Você lembra de cada litro de água que não tomou? Das noites em claro, do estresse que você deixou ferver? Nós somos o resultado da tua pressa, Juarez. Você corre tanto pra construir o mundo lá fora… que esquece o universo dentro de você. O salão vibrou. Uma pedrinha translúcida levantou-se do fundo e gritou: — Objeção! Ele tentou nos matar com litotripsia! Outra retrucou: — Mas foi por amor-próprio, idiota! E o tribunal virou um caos mineral. Juarez, pasmo, observava o julgamento que ele mesmo havia convocado — sem querer. Cada pedra era uma lembrança de negligência, de culpa, de um “amanhã eu mudo” que nunca chegava. Calx se aproximou. A luz refletia em suas bordas afiadas, e por um instante ela parecia... bonita. — Não somos vilãs, Juarez. Somos espelhos. Cada dor que te demos foi uma chance de acordar. E, acredite, a dor é o único professor que você sempre escuta. Juarez ficou em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras — e o leve toque de ironia que vinha junto. — Então o que você quer de mim? — perguntou, por fim. Calx sorriu. — Quero que pare de nos criar. Que viva de modo que eu me torne um mito, não uma lembrança recorrente. Mas, acima de tudo, quero que conte a nossa história. Mostre que até uma pedra pode ensinar algo — se você tiver coragem de ouvir. O salão começou a se dissolver. As pedras foram se apagando, uma a uma, até se tornarem poeira. E, no último instante, Calx sussurrou ao pé de seu ouvido: — Se cuidar não é vaidade. É gratidão. Juarez acordou. O coração acelerado. O corpo suado. No criado-mudo, o potinho refletia o nascer do sol. A pedra lá dentro... parecia sorrir. E ele entendeu. A dor que viveu talvez não fosse a maior do mundo — mas bastou. Bastou para que ele ouvisse o corpo, o silêncio, e aquilo que sempre tentou ignorar. Cada um carrega suas próprias pedras — algumas visíveis, outras escondidas. Mas todas falam. Algumas gritam, outras apenas sussurram. O segredo é parar e escutar — antes que elas precisem machucar pra serem ouvidas.

Continua... Capitulo 5.

Conheça “As Pedras Que Dei à Luz” e descubra a leveza escondida nas cicatrizes.

Cada dor conta uma história — e talvez a sua também mereça ser ouvida.

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