Capítulo 5 – As Pedras Que Dei à Luz. A superação e o aprendizado.
O outro dia amanheceu manso — e Juarez também. Depois de tantos anos convivendo com o medo das cólicas, acordar sem dor parecia quase um milagre: como se o corpo, enfim, tivesse assinado um armistício silencioso com a alma. O sol atravessava a janela e batia num pequeno frasco sobre a mesa de cabeceira. Lá dentro, um punhado de pedras minúsculas reluzia sob a luz da manhã. Não eram joias, mas também eram raras: as pedras que ele mesmo deu à luz. Juarez se aproximou e observou cada uma delas. Lembrou-se das madrugadas em hospitais, do suor frio, das injeções de analgésico, dos suspiros entrecortados. Mas também lembrou das risadas depois da dor — das vezes em que comparava o sofrimento ao parto e dizia para as enfermeiras: — Acho que hoje foi trigêmeos! Sorriu com o canto da boca. Aquelas pedrinhas, tão insignificantes, haviam sido suas professoras. Tinham lhe ensinado sobre limite, descuido, e sobre o poder que o corpo tem de gritar quando a mente não escuta. Pegou o caderno de capa azul, amassado nas bordas, e escreveu no topo da página: “As Pedras Que Dei à Luz.” Era o começo de algo que ele ainda não sabia o que seria — talvez um desabafo, talvez um manual, talvez só uma forma de agradecer à dor por tê-lo guiado de volta pra si mesmo. Enquanto escrevia, uma voz ecoou em sua mente. Não era lembrança, nem delírio — era ela, a pedra. Calx, sua velha companheira de cálcio e ironia. — Ora, ora... voltou a escrever? — disse ela, divertida. — Já estava com saudade, criador. Pensei que fosse me esquecer assim que parou de doer. Juarez riu sozinho. — Não esqueci, não. Só estou te transformando em palavra — respondeu mentalmente. — Palavra? — zombou Calx. — Grande evolução... antes eu era uma dor aguda, agora virei literatura. Que luxo! E ele continuou escrevendo. Cada lembrança virava parágrafo; cada dor, uma metáfora. As páginas iam se enchendo de confissões, ironias e pequenas epifanias. Quando terminou, o caderno estava quase inteiro preenchido. Demorou até decidir mostrar o texto ao mundo. Mas quando o fez, algo mágico aconteceu. Pessoas começaram a escrever para ele — gente que nunca havia tido um cálculo renal, mas se reconhecia nas metáforas, nas pequenas dores que também se “cristalizam” quando a vida não é bem cuidada. O livro, antes íntimo, virou espelho. Durante uma palestra, uma mulher levantou a mão e disse: — Juarez, seu livro me fez perceber que eu também estava produzindo minhas pedras — não no rim, mas no coração. Obrigada. Ele ficou em silêncio. A frase ecoou fundo. Talvez fosse essa a resposta inesperada do universo: a dor que um dia o feriu agora curava outros. Mais tarde, em casa, abriu o caderno novamente. Uma leve pontada surgiu no flanco direito. Pequena. Tímida. Ele sorriu. — É você, Calx? — perguntou baixinho. E a voz veio, suave, quase maternal: — Calma, criador… não vim pra doer. Só passei pra lembrar que estou aqui — e que agora você aprendeu a me ouvir antes de eu gritar. Juarez respirou fundo, bebeu um copo d’água e escreveu a última linha: “Algumas dores não vêm pra destruir — vêm pra lapidar. E quando a gente aprende com elas, até a pedra vira poesia.”
Continua... Capitulo 6.
Conheça “As Pedras Que Dei à Luz” e descubra a leveza escondida nas cicatrizes.
Cada dor conta uma história — e talvez a sua também mereça ser ouvida.


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